A ansiedade é uma emoção universal. Todos, em algum momento, já sentiram o coração acelerar, a mente se perder em preocupações ou o corpo reagir de forma mais intensa diante de situações novas. Mas será que existe um grau de ansiedade? E como é possível identificar se ela está dentro de um nível funcional ou se já se tornou disfuncional?
Nos últimos anos, a neuropsicologia e as ciências do comportamento têm avançado na forma de compreender os transtornos ansiosos. Modelos mais atuais e abrangentes, como o Research Domain Criteria (RDoC) e o Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (HiTOP), oferecem novas perspectivas sobre como avaliar o funcionamento emocional e cognitivo das pessoas.
Esses modelos propõem uma visão mais ampla, que vai além da categorização tradicional de manuais como o DSM-5. Em vez de colocar os indivíduos em “caixinhas” diagnósticas, eles observam o comportamento humano como parte de um espectro, variando entre funcionalidade e disfuncionalidade.
Enquanto o modelo DSM-5 busca identificar sintomas específicos para classificar um transtorno, o RDoC e o HiTOP avaliam fatores fisiológicos, ambientais, mentais e neurológicos. Isso permite compreender a intensidade e o impacto real dos sintomas no cotidiano, sem reduzir a pessoa a um rótulo clínico.
Nessa abordagem, a ansiedade pode ser vista como algo presente em todos nós, em maior ou menor grau. A diferença está no quanto ela interfere na vida diária, nos relacionamentos e nas atividades.
Avaliando o Grau da Ansiedade
Uma forma prática de entender o próprio nível de ansiedade é refletir sobre sintomas específicos e observar se eles se manifestam de forma funcional (quando têm um papel adaptativo) ou disfuncional (quando geram prejuízos significativos). A seguir, estão alguns exemplos frequentemente observados:
1. Dificuldade de concentração
A concentração pode oscilar em dias de maior agitação mental, e isso é natural. No entanto, quando a distração é constante e afeta o desempenho no trabalho ou nos estudos, pode indicar uma disfunção relacionada à ansiedade.
2. Insônia
Problemas para dormir são comuns em momentos de preocupação. Mas se o sono é interrompido por longos períodos ou o cansaço se torna recorrente, isso pode estar ligado a um quadro de ansiedade crônica.
3. Pensamentos negativos
Ter pensamentos negativos não é, por si só, um problema. Em alguns casos, eles podem até impulsionar a performance. O ponto de atenção surge quando esses pensamentos paralisam ações, aumentam o medo ou diminuem a autoconfiança.
4. Impulsividade
Ações impulsivas podem ser aprendizados quando geram reflexão posterior. Porém, quando passam a causar prejuízos, repetem-se de forma automática ou se tornam compulsivas, sinalizam um padrão disfuncional.
5. Inquietude
Ficar inquieto em momentos de tensão é esperado. O sinal de alerta aparece quando a agitação física impede o relaxamento, interfere em contextos sociais ou gera desconforto constante.
6. Tiques ou comportamentos automáticos
Alguns comportamentos, como roer as unhas, são respostas automáticas que nem sempre trazem prejuízo. Já outros, como a tricotilomania (arrancar fios de cabelo repetidamente), podem afetar autoestima e bem-estar emocional.
7. Evitar situações
Evitar determinadas circunstâncias pode ser uma escolha saudável. Contudo, quando a evitação impede o crescimento pessoal, como evitar falar em público ou participar de atividades importantes, a ansiedade pode estar interferindo na funcionalidade.
8. Cansaço físico e mental
A ansiedade consome energia. Em níveis moderados, o corpo se recupera rapidamente. Em intensidade alta e constante, pode levar ao esgotamento, afetando sono, humor e produtividade.
9. Preocupações excessivas
Pensar sobre o futuro faz parte da vida. Mas quando os pensamentos se tornam circulares, catastróficos e incontroláveis, tendem a aprisionar a mente em um ciclo ansioso de passado e futuro.
10. Desânimo e perda de motivação
O desânimo ocasional é natural. O problema ocorre quando ele se prolonga, afetando a vontade de agir e o prazer nas atividades diárias, algo comum em quadros de ansiedade mais intensa.
Cada sintoma pode ser percebido em diferentes intensidades. Por isso, é útil imaginar um gráfico entre funcional e disfuncional e avaliar onde cada um se encaixa na sua realidade. A ansiedade, em certa medida, é um mecanismo adaptativo que ajuda o ser humano a se preparar para desafios. O desequilíbrio acontece quando o medo e a tensão tomam proporções que limitam a vivência.
Se algum sintoma interfere diretamente na rotina, mesmo que sejam poucos, pode ser um sinal de que é hora de buscar uma avaliação psicológica ou psiquiátrica. A ansiedade, quando compreendida e tratada com cuidado, pode se tornar uma aliada na construção de uma vida emocional mais equilibrada. Blz? Show!
Eduardo Giovanelli
Neuropsicólogo





